quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Quero fazer um tetraplégico dar o pontapé inicial da copa de 2014, diz cientista

Cientista Miguel Nicolelis
Miguel Nicolelis não precisa ser reconhecido por mais ninguém – e nem ganhar o Nobel no qual é listado como eterno candidato – para provar que é o cientista brasileiro mais importante hoje. O paulistano da Bela Vista ganhou no ano passado um prêmio de mais de US$ 2,5 milhões (R$ 4,4 milhões) dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (NIH, na sigla em inglês) que, distribuído ao longo de cinco anos, financiará sua pesquisa sobre a fusão entre homens e máquinas, cujos resultados vêm devolvendo a esperança para tetraplégicos e pacientes de Parkinson. Há mais vinte anos à frente de um laboratório na Universidade Duke, o neurocientista acaba de reunir suas ideias, teorias e descobertas em um livro publicado em março nos EUA e que chega em junho ao Brasil, pela Companhia das Letras, como Muito além do nosso eu – A nova neurociência que une cérebro e máquinas e como ela pode mudar nossas vidas.
Agora, ele se prepara para finalizar seus dois maiores projetos na vida: a construção de um polo de ciência em Macaíba, Natal, e a finalização de uma veste robótica que poderá fazer que tetraplégicosvoltem a andar, usando só a força do pensamento. “É o que quero fazer com um adolescente brasileiro paralisado na abertura da Copa do Mundo de 2014. Não me interesso por prêmios. Esse sim é o meu maior sonho. Se tudo der certo, esse menino dará o pontapé inicial”, promete.
E, se tudo parece dar certo, o Nobel também parece mais próximo. O cientista foi convidado para apresentar um simpósio em plena Fundação Nobel, em Estocolmo, na Suécia. Pela primeira vez, os comitês responsáveis pelas premiações nas área da Medicina, Química e Física se reuniram para organizar um evento multidisciplinar, cujo tema é justamente a fusão homem-robô, assunto do qual ele é a maior autoridade no mundo.
Quais foram as descobertas mais importantes da neurociência nos últimos dez anos?
Primeiramente, ela possibilitou observar populações de células de uma dimensão que ninguém tinha visto ainda. No meu livro, separei dez princípios descobertos pela nova neurociência. Experimentos nos últimos dez anos mostraram, por exemplo, que o processamento não é localizado, mas distribuído. Que os neurônios podem participar de vários circuitos simultaneamente. Que o sistema incorpora ferramentas artificiais como extensões do modelo do seu próprio corpo. O nosso corpo não termina no epitélio, mas se estende até o limite da ferramenta que a gente usa sobre o controle do cérebro. E uma série de outras descobertas mais técnicas e específicas, mas que na minha opinião formam o corpo de uma nova ciência do cérebro.

A resposta de um membro biônico já é similar à do corpo? Pode explicar como o órgão se adapta a uma estrutura externa?
Mesmo se você enviar o sinal para o Japão e esperar ele voltar, é 20 milissegundos mais rápido do que o sinal que sai da cabeça e vai para o músculo do macaco. Mas, para que isso ocorra, o cérebro tem de ser retreinado. Esse é outro princípio, o da plasticidade, o cérebro pode se adaptar. Uma vez que você está usando um artefato robótico, artificial, o cérebro tem de remapear sua relação com ele. Nós medimos isso, pela primeira vez, em tempo real. Com isso, o que demonstramos foi a capacidade do corpo de se estender, a libertação dos limites físicos através do cérebro. A mente pode entrar em um diálogo bidirecional com outro dispositivo. Era isso que ninguém sabia ainda. Mas esse meu experimento ainda era uma parte básica da pesquisa. Na verdade, ele surgiu para tentar provar uma teoria de quase duzentos anos. Queríamos resolver essa questão, e conseguimos, mas, no processo, notamos que estávamos mexendo em uma área que tinha um enorme potencial clínico. Poderia realmente ajudar as pessoas.

Entrevista com o cientista Miguel Nicolelis
Quando isso poderá ser aplicado nas pessoas?
Nos próximos três anos e meio queremos fazer a demonstração do projeto Walk Again, um consórcio multinacional de pesquisadores de neurociência e robótica que está desenvolvendo uma estrutura robótica para fazer que tetraplégicos voltem a se movimentar com autonomia completa, apenas com a força do pensamento. Estamos concluindo a primeira fase, demonstrando que é possível extrair sinais de controle motor de todo o corpo. Já mostramos que isso é valido para os membros superiores e inferiores e agora podemos controlar o balanço e o equilíbrio, o que é fundamental para andar.

O primeiro protótipo do exoesqueleto já foi finalizado?
O exoesqueleto está sendo desenvolvido por um roboticista com o qual trabalho há muitos anos, Gordon Cheng. Está sendo finalizado agora, em Munique. Criamos uma versão que será controlada de forma autônoma por um macaco – o que ele pensar, a tecnologia reproduzirá. Será uma estrutura de corpo inteiro, muito similar à que estamos desenvolvendo para a aplicação clínica em pessoas. Claro que o macaco não vai sair jogando bola, mas, se demonstrarmos que ele pode ter autonomia de movimento, cumpriremos o objetivo final. Conseguimos mexer com três variáveis fundamentais: tempo – a tecnologia é mais veloz que o ‘hardware biológico’ –, espaço – o membro biônico pode estar em qualquer lugar do universo – e força – o cérebro pode movimentar um guindaste industrial ou uma ferramenta nanométrica com o mesmo esforço. O controle do robô mistura os sinais dos pensamentos com reflexos robóticos. É como se fosse o corpo da gente, que tem comandos central e local. Ele é movimentado por motores hidráulicos. É feito de um material muito leve, que, apesar de resistente, pode ser dobrado.

Entrevista com o cientista Miguel Nicolelis
Que tecnologias podem surgir a partir do seu trabalho?
O aprimoramento da nanomedicina, por exemplo. Será possível fazer intervenções dentro da célula, retirar uma única célula cancerígena. Teoricamente, com a nossa tecnologia, no futuro, o operador poderia controlar essa ferramenta diretamente pela mente. Também seria possível controlar um foguete com a força do pensamento, ou mesmo um avatar.

Isso não é só ficção?
A prova de que isso não é ficção é que a maioria das grandes empresas de tecnologia do mundo já têm departamentos dedicados a estudar o impacto da tecnologia no cérebro e o desenvolvimento de interfaces entre a mente e os computadores. Google, Microsoft, Intel e IBM já têm essas divisões, o que é uma coisa inédita. Eu mesmo já fui palestrar no Google três vezes.

Muito picareta entrou nesse ramo nos últimos anos, puxado por essa onda do futurismo?
Sim, muitos. A maioria ligada a essa história de Singularidade, essa ideia de que as máquinas podem resolver todos os problemas humanos. Acho mais fácil ter uma invasão de aliens que isso que eles propõem acontecer. Eu tenho uma opinião totalmente oposta a deles. Não acredito na proposta filosófica de que as máquinas vão dominar o mundo e nos substituir. Acredito no oposto, que qualquer máquina é uma imagem do que nosso cérebro imaginou. Elas são continuações do nosso processo de pensar ou de tentar imitar a natureza. Acredito em um simbiose homem-máquina em que o cérebro humano vai continuar controlando e assimilando tudo. O cérebro assimila o que usa com frequência, não é a toa que somos viciados em celular, computador, TV. Aquilo é parte de nós. A imortalidade para mim vai chegar, mas vai acontecer de outra maneira: quando pudermos fazer um download dos nossos pensamentos, das nossas ideias, das nossas memórias. Isso é possível. Tudo o que fazemos é por meio de sinais elétricos e isso pode ser reproduzido até em avatares. Mas um avatar não inventa nada, não tem novas experiências. Eu gosto dessa ideia, acho até poética, mas não tem nada a ver com a imortalidade física. No futuro, quando criarmos métodos não-invasivos para captar a atividade cerebral com grande resolução – e esse equipamentos vão vir, é inevitável – ou mesmo se um dia as pessoas acharem que tudo bem implantar um chip, poderemos registrar milhares, um dia quem sabe milhões, de células individuais ao mesmo tempo. Hoje conseguimos registrar cerca de mil células ao mesmo tempo. Nesse patamar, já é possível sonhar com alguém andando, e é isso que eu quero fazer na abertura da Copa do Mundo, aqui no Brasil, com um adolescente brasileiro.

Compartilhado por: Rafael Mota

No fundo do mar


Mergulho autônomo adaptado completa 20 anos no Brasil e se consagra como uma ferramenta de lazer e inclusão social



Por Cynthia Marafanti

Foto Fábio Freitas
Foi-se o tempo em que mergulhar nas profundezas do oceano era uma prática exclusiva para nadadores experientes, em ótima forma física e, por conseguinte, que não tivessem deficiência física. Atualmente, para desbravar as maravilhas e peculiaridades dos setes mares, basta querer! Isso mesmo, o mergulho adaptado é uma prática inclusiva e permite que pessoas com limitações físicas ou sensoriais possam curtir esse esporte prazeroso, além de promover bem-estar e alegria, num contato íntimo com a natureza. Os adeptos afirmam que a emoção é garantida.
O mergulho autônomo adaptado é uma prática esportiva legalizada, de acordo com a Handicapped Scuba Association Brasil (HSA Brasil), que representa a Handicapped Scuba Association Internacional no País. Assim, para conhecer de perto as particularidades do fundo do mar, é necessário o acompanhamento de algum profissional treinado pela organização, garantindo, assim, a segurança da atividade. “De início há o ‘batismo’ na piscina, como chamamos o primeiro contato com o mergulho.
Nesse momento, a pessoa vai aprender noções básicas de como usar o equipamento e vivenciar algumas horas de lazer. Se avaliarmos que ela está preparada, seguimos para algum balneário onde acontecerá o treino no mar”, explica Lúcia Sodré, professora de educação física, especializada na área de pessoas com deficiência, instrutora de  mergulho  autônomo e responsável pela HSA Brasil.
Lazer para profissionais
Agora, quem quiser ir além de algumas horas embaixo d’água, pode fazer o curso de mergulhador com certificado internacional. Nesse caso é necessário apresentar atestado médico específico e, após a autorização médica, o aluno deverá frequentar 40 horas de aula, incluindo aprendizados teóricos e práticos. Essa formação garante conhecimentos sobre equipamentos utilizados, física e fisiologia aplicadas ao mergulho.
Um dos atrativos do mergulho é que, embora seja uma prática esportiva, não há competição entre os participantes, pois se trata de uma atividade exclusiva para recreação e lazer. E por falar em diversão, quem tem mobilidade reduzida sabe da importância e facilidade de se locomover dentro da água, já que bro corpo fica leve e a flutuabilidade permite se deslocar com suavidade e experimentar sensações muito agradáveis. “A natureza marinha é impressionante. Poder tocar em corais, esponjas, estrelas-do-mar, tudo isso é incrível, me sinto livre e feliz em estar ali”, conta − por intermédio da esposa Cláudia Sofia Pereira− Carlos Jorge Rodrigues, 51 anos, surdo-cego e que pratica mergulho adaptado desde 1997.
Além de ser uma atividade lúdica, que envolve familiares e amigos, pode ser feito por pessoas com qualquer deficiência. “A metodologia de ensino varia de acordo com o grau de necessidade de cada aluno – como, por exemplo, materiais em braille para pessoas com deficiência visual ou com auxílio de vídeo com legendas para quem apresenta deficiência auditiva. Assim, fazemos com todas as pessoas. Afinal, para cada uma delas há adaptações em particular”, conta Lúcia.
A única ressalva é para pessoas com deficiência intelectual, já que os alunos têm de aprender um extenso conteúdo. No entanto, se o candidato apresentar capacidade de entendimento, também poderá participar e desfrutar da prática marinha.
Mergulhar faz bem
Há quem pense que mergulhar pode promover algum avanço no quadro clínico do paciente mergulhador. Mas Lúcia garante: “Essa atividade não tem cunho terapêutico”. Contudo, é certo que estar envolvido por uma imensidão de água e ver ou tocar animais exóticos proporciona sensações diferentes, afora o ato da inclusão social que, sem dúvida, favorece o estado psicológico de qualquer pessoa, com ou sem deficiência.
Jefferson Maia, 47 anos, foi baleado aos 23 e sofreu uma lesão cervical. À época, ele era mergulhador profissional e trabalhava em uma plataforma de petróleo. Para o espanto de muitos, mesmo após o incidente que lhe tirou a mobilidade dos braços e das pernas, não abriu mão do contato com a vida subaquática. “Sempre tive prazer em mergulhar, me sinto feliz com isso e não vejo razão para deixar de fazer algo que me faça bem”, conta.

Funcionamento e adaptações
A prática exige comunicação ininterrupta entre o grupo que está mergulhando, a qual é baseada em um conjunto de códigos de sinais estabelecidos internacionalmente (Sinais Convencionais). Esses gestos são ensinados aos mergulhadores com deficiência. No entanto, para facilitar o processo e possibilitar uma perfeita interação entre pessoas com deficiências visual, audiovisual e motora – com ausência ou limitação para o movimento dos membros superiores – foram criados os Sinais Convencionais Adaptados, instaurados de acordo com as habilidades e possibilidades de cada praticante. Estabelecida a forma de comunicação, é hora de cair na água. Mas você deve estar se perguntando: como levar um cadeirante, por exemplo, para o fundo do mar? “No Brasil, ainda não temos barcos adaptados com rampas, elevadores e barras de apoio como os disponíveis no Caribe, por exemplo.
Curiosidade
Como o próprio nome diz, o mergulho adaptado envolve as práticas de mergulho convencionais, com algumas adaptações materiais e técnicas. No  mergulho  convencional (para a pessoa sem deficiência), os praticantes têm de mergulhar sempre em dupla. Já na prática adaptada para tetraplégicos ou cegos e surdos, é necessário mergulhar em trio, a fim de aumentar a segurança.
Quando levamos grupos de pessoas com deficiência para mergulhar na costa brasileira, promovemos essa ‘adaptação’, carregando pessoas sem mobilidade no colo, guiando um cego, enfim, atendendo às necessidades de forma improvisada”, esclarece a professora. E no que diz respeito aos cais de porto, essa é outra questão a ser levantada. “É imprescindível que tenhamos uma estrutura pensada e exclusiva para pessoas com limitações físicas. Em Arraial do Cabo (RJ) há um projeto para a construção de uma plataforma adaptada, com cais flutuante e elevador, promovido pela Mister Diver. Acredito que após a alta temporada de 2012, esteja pronto”.
É evidente que ainda existem diversas barreiras no quesito acessibilidade, as quais impedem a popularização do mergulho adaptado. Por outro lado, é também verdade que seus adeptos não abrem mão de sentir o prazer de estar embaixo d’água e encontram soluções para os empecilhos. “Para mudar esse cenário e proporcionar maior inclusão social, é necessário que outras instituições se mobilizem e patrocinem momentos de lazer para pessoas com deficiência”, destaca Lúcia Sodré. O passeio é planejado com antecedência. “Para a hospedagem, reservamos pousadas e hotéis que ofereçam infraestrutura adequada”, complementa.
Onde mergulhar?
Como os mergulhos convencionais, as saídas para os adaptados, no Brasil, podem ser feitas em toda a costa, em praias e ilhas, mas as regiões mais procuradas, de acordo com a HSA Brasil, são Arraial do Cabo, Cabo Frio e Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.
Ações e reações
Foto Flávia Mergulhão
Aula prática
O  mergulho  para pessoas com deficiência no Brasil aconteceu pela primeira vez em 1991, quando a professora Lúcia convidou James Gatacre, fundador e presidente da Associação Internacional de  Mergulho  Adaptado (HSA, sigla em inglês), para ir ao Rio de Janeiro e formar os primeiros instrutores especializados no País. “Desse dia em diante, percorremos um longo caminho, porque a maior barreira não é arquitetônica, ela está em desmistificar o preconceito de que pessoas com tetraplegia, por exemplo, não são capazes de fazer as mesmas coisas que aquelas sem deficiências fazem. O mergulho adaptado é apenas um exemplo de que para toda necessidade há uma solução”, reflete a pioneira.
Há, paralelamente, instituições como o Núcleo de Apoio à Natação (Nanasa), em Santo André (SP), que apoiam o mergulho autônomo adaptado. O Nanasa conta com o apoio do poder público, da iniciativa privada, da sociedade civil e de instituições do ensino superior, todos unidos para promover melhor qualidade de vida às pessoas, independentemente da classe social e de suas condições financeiras.
O núcleo atende atualmente cerca de 240 pessoas com deficiências visual, auditiva, intelectual e física, com atividades pra lá de especiais. Para se ter ideia, além das aulas de natação, totalmente gratuitas, os profissionais promovem reuniões pedagógicas com os familiares, orientando e estimulando o convívio social. Recreação com festas temáticas e atividades de lazer em parques da cidade são outras práticas da organização.




Fonte: Revista Sentidos
Compartilhado por: Rafael Mota