segunda-feira, 11 de junho de 2012

Pessoa com deficiência, não superherói!


Esses dias, li algumas postagens do Jairo (Marques, jornalista da Folha de São Paulo, autor do blog Assim Como Você) que me fizeram refletir que, ultimamente, a sociedade anda vendo as pessoas com deficiência como seres iluminados.
Gente que porque superou (na real, se adaptou, porque superar seria se “curar”, não?) uma deficiência física, sensorial ou cognitiva, de repente, perdeu o status de ser humano, pra se tornar alguém iluminado, blindado, a prova de chuva de meteoros. Viramos superheróis, semideuses, como se tivéssemos atingidos todos o samadhi (copiando a explicação da wikipedia:  controle completo das funções da consciência, que resulta em vários graus de aquisição interna da verdade) tal qual os mestres hindus ou zen budistas.
                                                                       Sou surda oralizada, meu caro. Não a Mulher Maravilha!

Parece que o povo não percebe essa projeção está, na verdade, nos negando o direito de continuarmos sendo humanos. Humanos no sentido de poder nos estressar com probleminhas mundanos. Só porque alguém sobreviveu a um acidente de carro, a pessoa nunca mais pode reclamar de ônibus lotado. Ou porque alguém “superou o trauma” de perder um sentido sensorial, tem obrigação de ser um poço de compreensão com as cretinices alheias. Magina se um surdo oralizado poderia se aborrecer com o fideputa que usa a deficiência dele pra se dar bem de alguma forma?
Se antes éramos tratados como inválidos, agora somos tratados como seres angelicais, sem qualquer vínculo com os problemas e as fraquezas humanas. A gente não pode reclamar de nada, se estressar com nada, tem que perdoar todas as fraquezas e falta de caráter do outros. No máximo, a gente pode reclamar de falta de acessibilidade. Mas só isso…
É um tal de divulgar histórias de superação de forma que nos tornamos exemplos.
Outro dia, conversava com alguém e falei “eu não tenho nenhuma pretensão de ser exemplo de nada”. Ela arregalou os olhos e perguntou “e você faz o DNO para o que?”. Respondi “Para ser parceira de quem passa por situações similares e quer companhia, quer conversar, quer compartilhar os receios e as conquistas. Posso mostrar que dá pra ser feliz independente de qualquer coisa. Mas não de forma exemplar, ninguém precisa me olhar como espelho, apenas como uma mão amiga…”. Simplesmente porque acho impossível, como disse Tom Jobim, ser feliz sozinho. Todo mundo precisa de companhia. Eu precisei e continuo precisando. Quer saber o número de vezes que levei bronca, ouvi dicas e conselhos do Raul e da Anahi, meus mestres no sentido de lidar com a deficiência auditiva?
Não é porque perdi a audição e consegui lidar com isso que deixei de ser humana. Eu me estresso com coisinhas ínfimas do dia a dia. Fico de mau humor por bobagem. Falam que sou esforçada porque aprendi outro idioma usando só a leitura labial, mas sou preguiçosa para caramba e passo o dia de pijama quando posso. Levo de boa a ignorância alheia com o grupo dos surdos oralizados a maior parte do tempo, mas meu sangue ferve quando alguém me enche o saco quando digo que não estou afim de fazer algo.

 Eu erro, eu falho, eu tropeço, eu recomeço do zero e eu chuto o pau da barraca diante dos desafios  do dia a dia, que  não tem nenhuma relação com a surdez. Porque ter deficiência não me promoveu a outra categoria de criatura nem a outra espécie interplanetária, continuo sendo uma pessoa, e tendo que pagar contas, e tendo que trabalhar, e tendo que enfrentar trânsito, e tendo problemas familiares, e tendo vontade de mandar certas pessoas tomarem no… porque sim, eu posso até perdoar muita coisa, mas não sofro de amnésia e, muitas vezes, guardo sim rancor, mesmo sabendo que isso só faz mal a mim. É o meu direito como ser humano!


                                                                                   Acredite, nenhuma pessoa com deficiência se torna, obrigatoriamente, um mestre zen, que mora no
 topo de uma montanha, complemente alheio aos problemas cotidianos.

Falo isso, porque ando pelas tampas com essa exigência da sociedade de que “exemplo de superação” tem que ser iluminados, abnegados e exemplos de mentalidade zen. Não roubem o nosso direito de continuar sendo tão humanos quanto qualquer pessoa!!
Só, e enfatizo, somente SÓ quando a sociedade parar de olhar as pessoas com deficiência de cima (como inválidos) ou no pedestal (como heróis) é que haverá respeito de verdade.Porque a gente respeita MESMO é quem a gente olha do mesmo nível. Quem a gente considera igual a nós. Antes disso, é um respeito falso, que vem recheado de paradigmas e preconceitos e não tem nada a ver com igualdade, com equiparação de direitos e com respeito puro e simples. E é só isso, somente isso, que todas as pessoas com deficiência querem: o direito digno de existir.

Escrito por laklobato em 07/06/2012
Compartilhado por: Rafael Mota

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